Lucas é corajoso, amável e generoso. O filme mostra isso desde o início porque começa com alguém se afogando num lago gelado, onde um grupo de homens mergulhou por prazer. Ele se atira de roupa e tudo e traz o amigo.

Mas Lucas é também um homem atraente, apesar de já não ser tão jovem, e é o único macho que trabalha numa escolinha para crianças pequenas, que o adoram. Está separado da mulher, que não o valoriza e tem saudades do filho, de quem não tem a guarda. Começa um namoro com uma moça estrangeira que também trabalha na escola.

Os ciúmes de uma criança vão transformar a vida dele num inferno.

E o mais patético de tudo isso é o fato que levou ao massacre de um homem íntegro.

Klara, filha do melhor amigo de Lucas (Annika Wederkopp, de 5 anos, mas já uma atriz maravilhosa), tem uma paixão infantil por Lucas e sente-se rejeitada porque ele é carinhoso mas firme quando ela se joga sobre ele e o beija na boca.

“- Klara, você não deveria beijar ninguém na boca…”

E acrescenta que o presente colocado no bolso de seu casaco deve ser dado à mãe dela.

Os pais de Klara muitas vezes se atrasavam ou esqueciam de pegar a menina na escola. Foi o que aconteceu naquele dia.

A diretora pergunta o que está fazendo sozinha no escuro e Klara repete palavras que ouviu de seu irmão mais velho mas que, na verdade, não compreende.

E tudo começa a desmoronar para Lucas.

“- Crianças não mentem”, é a certeza da diretora.

E o psicólogo chamado, ajuda a induzir a menina a respostas mudas, só com a cabeça. Daí a toda a comunidade colocar o rótulo de pedófilo em Lucas e começar a persegui-lo como se ele fosse uma fera, é só um passo.

A interpretação de Mads Mikkelsen (de “O Amante da Rainha”) é extraordinária, com nuances de expressão faciais perfeitas. Mereceu o prêmio que ganhou como melhor ator em Cannes no ano passado.

“A Caça” é um filme que toca a todos nós. Quem nunca jogou a primeira pedra? Vinterberg conduz seu filme com sobriedade, sem maniqueísmos e mostrando com clareza do que é capaz a natureza humana.

Pedofilia é tabu. Crime punido severamente não só pela lei mas também pelos próprios membros da comunidade onde acontece. No Brasil sabemos a triste sorte dessas pessoas quando são presas. E, mesmo quando inocentes, tudo pode apontar no sentido contrário. Basta lembrar do triste episódio ocorrido em São Paulo na Escola Base, onde todos os acusados eram inocentes mas tiveram suas vidas destruídas.

O clima de histeria coletiva que se instala na longínqua Dinamarca, é o mesmo que pode acontecer em qualquer lugar do mundo. Por que? Quanto mais condenado é um desejo, mais pessoas vão perseguir cruelmente quem eles acham que é o culpado. É como se dissessem: “É proibido para todos. Como ousas?”

A repressão intensa não deixa que se pense melhor sobre o acontecido e cobra que todos se vinguem.

Em um país onde todos os homens ganham um rifle como ritual de passagem para a vida adulta, Lucas passa de caçador a caça.

Uma bela fotografia tenta repousar nossa alma.

“A Caça”é um filme magnífico e perturbador que mexe com nossas certezas.

Assista ao trailer:

 

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3 Comentário:A Caça | por Eleonora Rosset

  1. Lorraine Baker

    Bru
    Esse filme é incrível mesmo. Assisti faz pouco tempo e já recomendei pra várias pessoas.
    Você está cada vez mais linda.
    Beijos

    • Bru Pacífico

      Oi Ló,
      Adorei você por aqui e gostei de saber que gostou do filme!
      Obrigada pelo carinho!
      Beijos
      Bru

  2. Alexandre

    Muito interessante a ideia de um crime que não aconteceu, mas a inocência também não tem como ser provada! Tem uma crítica em
    http://www.artigosdecinema.blogspot.com.br/2013/05/a-caca-jagten.html

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