Antes mesmo dos títulos, o perfil de um cemitério na colina, sob um sol incandescente, sugere o tom do que vamos ver numa paisagem árida e clima sufocante, no Meio-Oeste americano, Oklahoma, Osage County.

A voz de um homem cita uma frase de um poema de T. S. Elliot: “A vida é longa.”

E continua:

“- Minha mulher toma pílulas, às vezes muitas… (pausa) Não estou totalmente confortável com essa decisão…”

E eis que ela faz sua primeira chocante aparição. Meryl Streep é Violet Weston, uma mulher que assusta mas que ainda não conseguimos definir.

Sua figura é estranha. Cabelos brancos ralos, pele amarelada, passo cambaleante. Entra no escritório do marido (Sam Shepard), que está contratando uma empregada para ajudar na casa e ficamos conhecendo sua língua ferina e sarcástica:

“- Essa é a mulher que lhe falei. Ela cozinha, limpa…”

“- Uma índia? Ou devo dizer outra coisa? Você me acha bonita?”

Diz tudo isso num tom irônico, mordaz. Perde o equilíbrio e quase cai. Grita com o marido e volta-se para a mulher que a olha num misto de medo e respeito:

“- Desculpe. Eu tomo pílulas por causa da minha doença…”

E subitamente não consegue concluir a frase porque enrola a língua, gagueja, ri. Sai tropeçando.

O marido está visivelmente desconfortável. Explica que sua mulher faz quimioterapia porque tem câncer na boca.

“- Meu último refúgio são os livros. Prazeres simples.”

E estende um livro para a moça morena (Misty Upham).

E o quadro geral se completa quando o marido de Violet desaparece e ela, transtornada, pede que a filha Ivy chame as outras duas que moram longe dali.

E, quando elas chegam, começa o drama, quase uma tragédia, com toques de humor negro. A convivência acirra os traços mais ácidos da mãe, que, mais alucinada do que nunca, tem que enterrar o marido, Beverly, cujo corpo foi achado.

O filme tem roteiro de Tracy Letts que escreveu a peça de teatro em 2007 e ganhou um Tony na Broadway. É uma tragédia com momentos de exagero. Centra-se nas relações perversas entre os membros de uma família, que escondem segredos e competem pela frase mais agressiva e dolorosa que possam dizer, num almoço após o funeral.

Um caldo de culpas, recriminações e ataques até físicos, será servido para a plateia, que ri de nervoso.

O elenco é brilhante. Mas Meryl Streep leva sua personagem como ninguém. Da megera que explode em ódio, à doçura de uma cena onde procura uma dedicatória num livro do marido, ou quando, exausta, busca conforto no colo de uma mulher, ela está perfeita. Complexa. Alucinada e lúcida.

A filha do meio, Ivy, a mais doce e humana, a cargo da atriz que veio da TV, Julianne Nicholson, traz um pouco de compaixão para a tela.

A primogênita Barbara (Julia Roberts, num papel difícil e bem levado), a preferida do pai, é cria da mãe dela, assim como a mãe foi cria de outra, igual a ela agora.

Uma linhagem de mulheres não nascidas para o amor, nem para a compreensão. São imaturas, infantis, ávidas por abocanhar pedaços dos outros. Arrastadas pela compulsão para brigar e para odiar. Insanamente carentes.

A caçula (Juliette Lewis), vive o que a vida oferece. E foge para bem longe daquela arena sangrenta.

O diretor, John Wells, dá espaço para todo o elenco ter o seu momento de centro do palco. Brilham todos. Os homens inclusive (Ewan McGregor, Benedict Cumberbatch, Chris Cooper, sem falar do grande Sam Shepard.)

“Album de Família” tem bons e maus momentos. Os melhores, sem dúvida, na interpretação assombrosa de Meryl Streep, que não ganhou o Globo de Ouro mas que, sem dúvida, estará na lista do Oscar.

Assista ao trailer:

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1 Comentário:Álbum de Família | por Eleonara Rosset

  1. Isabella Lessa

    Adorei!
    Quero muito ver :::::)

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