Um cenário frio, montanhoso, desprovido de maiores encantos. A luz de um sol pálido de inverno mostra uma construção singela.

A câmara se aproxima e estamos dentro de um convento de freiras ortodoxas, vestidas de preto, véus e casquetes também negros. Trabalham na cozinha e pela conversa delas, fazem comida para alimentar crianças do orfanato local.

A Romênia, recém saída de um período negro de sua história, uma ditadura cruel do tirano Ceausescu, ganhou muitas páginas da imprensa internacional que falava e mostrava os mal afamados orfanatos, depósitos de crianças exploradas. Pois esse é o tema principal, o foco de “Além das Montanhas”, do diretor romeno Cristian Mungiu.

O filme foi adaptado de um romance baseado em fatos reais, escrito por Tatiana Niculescu, “Deadly Confessions” de 2006 e ganhou o prêmio de melhor roteiro do último Festival de Cannes, escrito pelo diretor Mungiu. As duas adolescentes, personagens principais da história, que vieram de um desses orfanatos, interpretadas por Cosmina Stratan e Cristina Flutur, deram às duas o prêmio compartilhado de melhores atrizes do festival. Além disso, o filme foi indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro para o Oscar 2013.

A submissa freirinha Voichita, de olhos azuis transparentes, vai receber a visita de Alina, sua antiga companheira de orfanato que fugira da Alemanha, adotada por uma família em nada diferente das pessoas que exploravam as crianças órfãs, à sua mercê, na época da ditadura.

Nesse orfanato onde estiveram juntas no passado, tudo indica que se amaram como se fossem mãe e filha, filha e mãe, um amor feminino e maternal, que uma dispensava à outra. Alimentavam assim sua carência de sentimentos mais doces e reconfortantes. Uma tinha apenas a outra para poder sobreviver naquele lugar infernal.

Uma bela cena de acalanto, na qual Voichita embala Alina no convento para que ela adormeça, cantando uma cantiga de ninar, com a amiga em seu colo como se fosse um bebê, fala tudo sobre esse sentimento de mútua dependência e necessidade de amor que ambas continuavam a sentir. Nem o convento, nem a casa alemã tinham muito para oferecer àquelas duas meninas carentes e maltratadas.

Mas Voichita, em sua fuga do mundo, se entregara à religião ortodoxa, praticada naquele convento com fanatismo. O Padre e a Madre Superiora eram tratados como “papai e mamãe” pela freirinha que deslocara assim suas necessidades de afeto para a submissão e obediência cega.

Alina é um peixe fora d’água nesse ambiente severo e cheio de regras seguidas estritamente por todos ali. Aterrorizados pelo pecado, não percebiam que os demônios rondavam, tentando com a rigidez fanática, aqueles corações perturbados.

E o ato final do horror é praticado por aqueles que diziam amar a Deus.

Por amor a Alina, uma extraviada Voichita ajuda as outras freiras e o padre no exorcismo do demônio que creem habitar a mocinha. Praticam o ritual cruel em nome de um amor equivocado.

“Além das Montanhas” é um filme que nos esmaga o coração enquanto nos tortura. Cria-se uma total identificação com as vítimas na tela.

Sem dó nem piedade, o fanatismo impera onde o amor deveria tudo perdoar e compreender.

Infelizmente, a Idade Média com suas trevas, convive na Romênia com o século XXI. Inacreditável.

Assista ao trailer:

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2 Comentário:Além das Montanhas | por Eleonora Rosset

  1. Fernanda

    Eu nunca assisti, mais fiquei com vontade de ver!
    Beijos Fe.

    Para dicas e novidades: http://www.fesparkle.blogspot.com

  2. Vanessa de Sousa Ramos

    Quero Assistir !

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