O que se pode dizer da vida quando vemos a morte? Nada, além de que é uma certeza. E, talvez por isso, Michael Haneke comece seu filme mostrando o fim, igual para todos nós.

Mas volta à plateia do teatro onde George e Anne assistem a um concerto de um ex-aluno. Estão ambos na década dos 80 anos, são cultos, sóbrios e exalam uma elegância sem data.

É visível a delicadeza entre eles.

Depois da conversa no ônibus, que não ouvimos, chegam ao apartamento confortável onde moram. A fechadura foi forçada, repara George. Mas ninguém entrou, nem roubou nada. Ainda.

Já no café da manhã quotidiano e agradável, na cozinha, o inesperado os visita. Anne se ausenta de si mesma e desespera George, que não sabe o que fazer. Mas logo ela volta a si e não se lembra de nada.

E, a partir daí, começa a prova mais difícil do amor. “Até que a morte os separe”.

Planos horizontais fixos e poucos “closes”, quando o diretor nos faz os olhos de George ou de Anne. No mais, a câmara aguarda, como nós, testemunhas mudas de algo que nos assombra. Freud dizia que a morte não possui inscrição no nosso inconsciente.

Mas o que importa aqui é o comportamento do amor.

George (Jean-Louis Trintignant, magnífico) encarna esse sentimento, assistindo Anne em tudo que ela precisa. E são tarefas cruéis para os dois.

Emmanuelle Riva, aos 85 anos, interpreta Anne com tal realidade, que nos comove e nos horroriza. Porque ela é o espelho do nosso futuro.

“- Você promete que não me leva mais ao hospital?” diz ela a George.

E um pouco mais tarde ajunta:

“- Não quero mais.”

George, aquele que sofre junto, só demonstra o que sente para nós, que vemos seus olhos abertos sondarem a noite e que fabrica um pesadelo que aponta o caminho cruel e necessário.

Michael Haneke, 70 anos, austríaco, ganhou sua segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2012. A primeira foi para “A Fita Branca” de 2010. E uma enxurrada de prêmios importantes fazem crer que ele é o mais cotado para o prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar. E mais. “Amor” está entre os 10 melhores filmes do ano, também no Oscar. E outras três indicações, somam cinco no Oscar 2013: melhor diretor e melhor roteiro, ambos para Michael Haneke e melhor atriz para Emmanuelle Riva. Já foi consagrado como o melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro 2013. É forte concorrente a todas as cinco indicações do Oscar.

Entrevistado, ele disse:

“- Na minha família alguém sofreu algo assim e foi terrível para mim estar lá sem poder fazer nada. Este foi o ponto de partida do filme. Como lidar com o sofrimento de uma pessoa que você mais ama?”

Isabelle Huppert faz uma participação especial como a filha Eva, fruto do amor de George e Anne. Parece que Michael Haneke colocou nela esse “sem poder fazer nada” que ele diz que viveu.

A morte é certa. Mas sem dúvida mais suave para quem tem o privilégio de ter um amor ao lado.

por Eleonora Rosset

Assista ao trailer:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=XrFIw_Trvyk

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3 Comentário:Amor | por Eleonora Rosset

  1. Fe

    Com certeza vou assistir! Beijos Fe. Para dicas e
    novidades: http://www.fesparkle.blogspot.com

  2. Patricia Fernanda

    Lindo trailer!

  3. Simone

    O filme e bom!! Mas e triste, muito triste!! E muito bom
    para reflectir!!

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